terça-feira, 4 de setembro de 2012

PARQUES NACIONAIS DO MATO GROSSO: UM CENÁRIO À PARTE

Este trabalho foi apresentado como TCC ao Colégio Presbiteriano - Juína - MT como conclusivo de final de 9º Ano do Ensino Fundamental I Autora: MANTOLVANI MELLO, M. Paola.



I. O QUE É UM PARQUE NACIONAL

É uma área destinada à conservação dos ecossistemas naturais com grande importância biológica, protegendo grande quantidade de caracteres específicos característicos de uma região e condições ambientais contra a expansão urbana e as ações antrópicas que geram modificação nos ambientes originais; possibilitando, porém, um monitoramento das atividades ocorrentes no meio, assim como o incentivo ao estudo daquela área e de seus constituintes de forma científica com o objetivo de desenvolver técnicas sustentáveis do aproveitamento destes, assim como o aprimoramento de técnicas para garantir o pleno convívio das áreas naturais no plano econômico e social dessa região.

1.1.PARQUES NACIONAIS E ESTADUAIS
Os parques nacionais e estaduais apresentam, em geral, os mesmos objetivos e condutas, no entanto são regidos por legislações diferentes: os parques estaduais apresentam legislação própria desenvolvida no instituto florestal do estado ao qual pertença, enquanto os parques nacionais são regidos pela legislação federal. Ambos se apresentam ordenados por um sistema nacional - Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) - integrado a todas as reservas de proteção no território nacional.

1.2. SNUC – PRINCIPAIS FUNÇÕES DOS PARQUES
O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza foi criado a partir da Lei Nº 9.985 de 18 de julho de 2000, que estipula, em seu artigo primeiro o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC – enquanto estabelece “critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação”.(LEI 9.985, 2000, art. 1º).
A lei determina, também como Unidades de conservação os espaços e recursos naturais que estão na biomas brasileiros, incluindo o subsolo, de maneira a preservar a biodiversidade e as condições climáticas necessárias à sobrevivência dos sistemas. Ela define os limites, com objetivos de conservação e delega responsabilidades, colocando sob regime especial de administração, capazes de oferecer garantias de proteção às unidades de conservação.
Entende-se por unidade de conservação o espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas que estejam na jurisdição e apresentem características naturais relevantes ao meio ambiente. Quanto à conservação da natureza é entendido como o manejo do uso humano da mesma, e compreende a preservação dos biomas, a manutenção dos ecossistemas e a utilização sustentável, bem como a restauração e recuperação de ambientes naturais, de maneira que possam manter seus potenciais para atender às necessidades das gerações de brasileiros vindoura, garantindo a sobrevivência dos seres humanos, animais e vegetais, bem como a conservação dos minerais.
Compreende-se por diversidade biológica a ser preservada as diferentes espécies de organismos vivos de todas as origens, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros, como os ecossistemas aquáticos e os complexos que abriguem diversidade de espécies ecológicas, e ainda, os diferentes tipos de subespécies no interior das espécies e seus ecossistemas, os quais devem ser mantidos e preservados.
A definição de recurso ambiental passa pelo reconhecimento da atmosfera, das águas interiores e das águas superficiais e subterrâneas, incluindo também os estuários, o mar do território nacional, e, também o solo e seu subsolo. Estão inclusos entre os recursos ambientais os elementos da biosfera, os da fauna e os da flora de todos os biomas e ecossistemas. A partir da delimitação do que vem a caracterizar os recursos naturais, a Lei 9.985/00 vem tratar também do que se considera “preservação”, estipulando no item V, que constitui o conjunto de métodos, de procedimentos e de políticas que tenham como objetivo a proteção das espécies, dos habitats e dos ecossistemas nacionais. Preservação significa também propiciar a manutenção dos processos ecológicos e impedir que o ser humano e outros fatores interferentes simplifiquem os sistemas naturais. Para isso, é criado o termo “proteção integral”, o qual implica na manutenção dos ecossistemas sem interferência do homem, cujo uso de seus produtos ou atributos naturais só pode acontecer por via indireta. Assim, surge o conceito de conservação “in situ”, ou seja “no lugar”, que significa conservação das espécies em seus respectivos ecossistemas e habitats naturais, bem como a manutenção e a recuperação de populações viáveis ou domesticadas ou cultivadas, em cada meio onde desenvolvam propriedades características a si mesmas.


O conceito de “manejo”, então, aplica-se a qualquer procedimento que assegure a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas. Outros conceitos muito importantes para a preservação e manutenção dos biomas nacionais também são discutidos na Lei, uma vez que define-se os sentidos de “uso direto”, “uso indireto” e “uso sustentável” dos ecossistemas, sendo o primeiro aquele que não envolve consumo ou destruição dos recursos naturais; o segundo, o que implica em coleta e uso dos recursos naturais e o o terceiro, o que garante a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos, explorando de forma economicamente viável, sem alterar de forma comprometedora a biodiversidade e os demais atributos ecológicos. No interior do “uso sustentável”, encontra-se um novo conceito para o “extrativismo” (itém XII), o qual aparece como “baseado na coleta e na extração” de modo sustentável dos recursos naturais renováveis”.

Art. 2o Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:
(...)
XII - extrativismo: sistema de exploração baseado na coleta e extração, de
 modo sustentável, de recursos naturais renováveis;
(…) (LEI 9.985, 2000, art. 1º).

A Lei trata e delimita também sobre os conceitos de “recuperação”, “restauração”, “zoneamento”, “plano de manejo”, “zona de amortecimento” e “corredores ecológicos”.
É bem sabido que a delimitação de todos esses conceitos são necessários à compreensão do leitor que não está familiarizado com os conceitos relativos à ecologia, disciplina originária da biologia que se torna ciência cada vez mais autônoma. Essa delimitação visa tornar a compreensão clara, para que infratores e usuários da Lei não possam dizer que “não a compreendem”. Por isso, sua redação se esmera em detalhes técnicos, tornando-os muito simples para qualquer leitor interessado.
A recuperação, então, como um processo inovador e muito praticado por grandes empresas que procuram transformar suas imagens de poluidoras e depredadoras dos ecossistemas em colaboradoras do desenvolvimento sustentável delimita que se trata da restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre que se encontrem em estado de degradação ou extinção, respectivamente. O objetivo é tornar o ecossistema o mais próximo possível do original, e a população em extinção elevada a um número próximo ao existente antes de sua redução.
Tanto o zoneamento, quanto o plano de manejo ou a zona de amortecimento tratam de questões de limites de uma zona a ser monitorada ou manejada, sendo uma competência da disciplina de ecologia associada a conhecimentos geográficos, também. No primeiro caso, são tratadas as definições das zonas ou espaços de uma unidade de conservação com o objetivo de manejo, buscando a harmonia do ecossistema ou da zona a ser manejada. Para que esta ação ocorra, é preciso que exista um plano de manejo , o qual é um documento técnico, fundamentado em objetivos gerais a respeito de uma unidade de conservação. Nesse plano de manejo é estabelecido o seu zoneamento, constando também as normas a serem aplicadas no uso da área, assim como o manejo dos recursos naturais, tratando da implantação de estruturas físicas, quando necessárias, para que seja gerida a unidade de conservação.
O zoneamento de uma área de conservação implica no aparecimento e delimitação de uma “zona de amortecimento”, ou seja, a região no “entorno” de uma unidade de conservação, onde as atividades dos seres humanos que ali vivem ou transitam ficam sujeitas a certas regras e normas, assim como restrições que visam diminuir ou impedir os impactos ambientais negativos sobre a unidade de conservação.
Para que as unidades de conservação funcionem, muitas vezes é preciso que haja entre elas certas ligações essenciais, para que as espécies possam dispersar-se ou recolonizar áreas degradadas, por isso, a Lei 9.985/00, incluiu em sua redação a disposição sobre corredores ecológicos, os quais são porções de ecossistemas naturais ou seminaturais, capazes de interligar áreas ou unidades de conservação.
Delimitados os conceitos com os quais tratará Lei 9.985/00, dá outras providências, como especificar a constituição do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, cujo conjunto integra as unidades de conservação no âmbito federal, estadual e municipal, no seu artigo 3º.

A lei Lei 9.985/00 trata dos objetivos do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, os quais se ordenam visando à manutenção da diversidade biológica, dos recursos genéticos e das águas jurisdicionais, a proteção de espécies ameaçadas, a preservação e restauração da diversidade dos ecossistemas, a promoção do desenvolvimento sustentável, a utilização de princípios e práticas de conservação, a proteção das paisagens naturais e de notável beleza cênica, a proteção das “características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e cultural” ; a proteção e recuperação de recursos hídricos e edáficos, a recuperação de ecossistemas degradados, a promoção de pesquisas e atividades científicas e de estudos e monitoramento dos biomas, protegendo os recursos necessários às comunidades tradicionais (ameríndios e quilombolas, entre outros), respeitando sua diversidade e formas de sobrevivência no meio ambiente, promovendo nas escolas a educação ambiental e para a diversidade, valorizando-as tanto social quanto economicamente, além da valorização dos recursos naturais, tanto no âmbito social quanto econômico.

Para que uma área seja delimitada e declarada Unidade de Conservação da Natureza é preciso que se constate que em seu interior, ou seja, nos seus limites de zoneamento estejam inseridas todas as diferentes populações ecologicamente viáveis e habitantes daquele ecossistema ou bioma, com população significativa de populações de espécies representativas.
Assim, é instituída uma política nacional de unidades de conservação, as quais devem assegurar os procedimentos necessários para que toda a sociedade se envolva nas diretrizes dessa política, com a participação das populações locais na criação e manutenção, bem como na gestão dessas unidades de conservação. Para que funcionem as políticas de implantação de unidades de conservação, é fundamental que participem dela vários tipos de organizações: de cunho governamental e não-governamental, privadas, e de pessoas físicas que se integrem ao desenvolvimento de estudos, pesquisas científicas, bem como instituições públicas e privadas envolvidas nesses estudos, enfatizando a prática da educação ambiental, atividades de turismo ecológico, entre outras, que visem o monitoramento e preservação dessas unidades.
A participação da sociedade também se relaciona à implantação de sustentabilidade econômica, garantindo a manutenção e preservação das áreas de conservação, garantindo a sobrevivência e reprodução “In situ” das populações geneticamente variantes selvagens de animais e plantas domesticados dos dos recursos genéticos silvestres. É preciso integrar as políticas de administração de terras e águas circundantes a essas unidades de conservação às políticas próprias dessas áreas, bem como a garantia de preservação do entorno que lhes possam alterar características próprias.
Para que o desenvolvimento sustentável das áreas ligadas indiretamente com as unidades de conservação, é preciso que haja a adaptação de técnicas e métodos que permitam explorações e usos de terras e águas adjacentes a essas unidades de maneira controlável e sustentável, as quais devem ser acompanhadas pela própria população local, que deve colaborar para a manutenção do entorno, usando de maneira sustentável os recursos naturais.
Para que não haja prejuízo de sobrevivência de populações tradicionais incluídas no interior das unidades de conservação, é preciso oferecer a elas alternativas de sobrevivência, uma vez que dependam da utilização de recursos naturais a serem preservados, ou, no caso de impossibilidade, é preciso que seja oferecida indenização pelos recursos naturais perdidos.
O ideal para que as unidades de Conservação funcionem perfeitamente é que elas mesmas possam autogerir-se, ou seja, que sejam autosustentáveis, produzindo recursos para sua própria manutenção, de tal maneira que não sejam destruídas ou mal conservadas. A autonomia financeira das unidades pode ser obtida por meio do turismo ecológico ou de frequência controlada de pessoas, como é o caso de alguns parques e reservas às quais o acesso é limitado e pago, cujo controle visa também à preservação e monitoramento constantes.
É de interesse também que as políticas articuladas tenham diretrizes que tratem da formação e proteção de grandes áreas, constituindo um conjunto integrado de unidades de conservação próximas ou contíguas, com corredores ecológicos ou zonas de amortecimento, que sejam capazes de integrar áreas de diferentes modalidades, integrando as atividades de preservação da natureza, pelo uso sustentável dos recursos naturais e pela restauração de ecossistemas degradados.
Várias estruturas governamentais unem-se nesse Sistema Nacional de Unidades de Conservação, dividindo atribuições, como o CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, o MMA – Ministério do Meio Ambiente, o qual coordena o Sistema, o Instituto Chico Mendes e o IBAMA – Instituto Brasileiro de Ação sobre o Meio Ambiente, além de órgãos estaduais e municipais relacionados às questões ambientais, os quais tratarão de executar juntamente com o IBAMA e o Instituto Chico Mendes as políticas devidas. Todos esses órgãos e outros de unidades de conservação são gestores do SNUC.

As unidades de Conservação da Natureza podem ser divididas em dois grupos com características que as distinguem entre si:
a) As unidades de Uso Sustentável: o objetivo delas é tornar a preservação da natureza compatível com o uso sustentável de grande parcela dos recursos naturais, de maneira que é permitido o uso indireto dos recursos, mas também o direto, ou seja, o extrativismo, porém de forma monitorada, a fim de preservar parte da biodiversidade e ecossistemas nela inseridos. Ou seja, sustentar a Natureza, mesmo usufruindo dela.
Neste grupo de Unidades de conservação da Natureza, encontram-se especificamente diferentes tipos de unidades de uso sustentável, a saber: as áreas de Proteção Ambiental; as áreas de Relevante Interesse Ecológico; as Florestas Nacionais; as Reservas Extrativistas; as Reservas de Fauna; as Reservas de Desenvolvimento Sustentável; e as Reservas Particulares do Patrimônio Natural.
b) As unidades de Proteção Integral: seu objetivo é preservar a Natureza, e nela são permitidos apenas os usos dos recursos naturais de maneira indireta, ou seja, que não causem malefícios à natureza, assim, funcionam atividades de coleta e não de extração, a menos que se faça necessárias, após o estudo detalhado de impactos ambientais.
Neste grupo de unidades de conservação, encontram-se as estações ecológicas, as reservas biológicas, os monumentos naturais, as reservas da vida Silvestre e, principalmente, os parques nacionais, os quais interessam mais, por serem o objeto desta pesquisa.
Enfatizado aqui que o interesse desta pesquisa são os Parques Nacionais e, especificamente, os Parques Nacionais do Estado de Mato Grosso, não deixará este trabalho, no entanto, de diferenciar entre as Unidades de Proteção Integral quais são as principais diferenças entre uma e outra, para que seja possível perceber a importância dos Parques Nacionais em oposição às demais áreas, valorizando assim tanto as diferenças entre elas quanto suas funções e motivações no interior do Sistema de Proteção às Unidades de Conservação da Natureza.
A Estação Ecológica é de posse e domínio públicos, uma vez que as áreas particulares incluídas em seus limites são desapropriadas, sendo proibida a visita de públicos, à exceção de objetivos educacionais, atendendo aos especificados nos planos de manejo de cada uma das unidades tem como objetivo a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas.
A pesquisa científica e os estudos nessas unidades dependem de prévia autorização autorização do órgão responsável pela administração da estação ecológica, estndo sujeita a condições e restrições estabelecidas pelo órgão e as sujeitas em regulamento específico.
Na estação ecológica não podem ser feitas alterações no ecossistema, à exceção de restauração de ecossistema modificado, manejo de espécies para a restauração e preservação da diversidade biológica, coleta de elementos para pesquisas com finalidades científicas, não podendo qualquer alteração produzir impactos neste ecossistema.
As Reservas Biológicas são de posse e domínio públicos, pois as áreas particulares incluídas em seus limites são desapropriadas, sendo proibida a visitação pública, exceto aquelas com objetivo educacional, de acordo com autorização do órgão gestor, da administração, cujos visitantes devem atender às regras do regulamento específico da reserva.
Elas possuem como objetivo a preservação integral dos biomas (biota) de dos demais atributos naturais que existam em seus limites, sem interferência dos seres humanos ou de ações ambientais indiretas. Somente serão admitidas medidas que visem à recuperação de seus ecossistemas, caso se encontrem alterados, sendo então permitidas então ações de manejo. Neste caso, os objetivos devem ser os de preservar ou recuperar o equilíbrio natural, a diversidade biológica e os processos ecológicos naturais.
Nas reservas biológicas, a pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão responsável pela administração da reserva e sujeita-se às condições e restrições estabelecidas pelo regulamento.
O Monumento Natural, diferente da Unidades de Conservação Integral que vimos até agora, pode ser constituído por áreas particulares, uma vez que se mostrem compatíveis com os objetivos da unidade de preservação relativamente à utilização dos recursos naturais, incluindo o uso da terra pelos proprietários das áreas que venham a integrar o Monumento natural. Quando as atividades dessas áreas particulares não se enquadram aos objetivos da unidade de conservação, elas devem ser desapropriadas e incorporadas ao projeto de implantação da unidade de conservação, ou seja, do Monumento Natural.
O Monumento Natural também deve possuir regras de Visitação, assim como as demais unidades de conservação e preservação integral da natureza, as quais devem ser estabelecidas previamente no Plano de Manejo da unidade.
Os Refúgios de Vida Silvestre podem ser constituídos por áreas particulares, uma vez possam compatibilizar os objetivos protecionistas ao meio ambiente, assegurando as condições de existência ou de reprodução de espécies ou comunidades de fauna e flora local, residentes em seus limites geográficos ou migratórias, pois têm como objetivo proteger ecossistemas naturais ou reordenados pela própria reintegração de espécies.
Se não houver compatibilidade entre os objetivos da área de preservação e as atividades privadas dos proprietários de áreas particulares, ela deverá ser desapropriada, de acordo com disposições legais e seu dono indenizado.
Nos Refúgios da Vida Silvestre a frequência do público está sujeita às restrições previstas no Plano de Manejo da unidade ou pelo órgão responsável por sua administração ou que constem em regulamento. Nelas, a pesquisa científica também se encontra sujeita à prévia autorização, estando sujeita às normas e restrições específicas. (Lei 9985/00).
E, finalmente, entre as Unidades de Conservação da Natureza, a que mais nos interessa, objeto desta pesquisa, são os Parques Nacionais, que se incluem entre as Reservas de Proteção Integral.
O projeto que inclui as proteções aos parques nacionais está bem definido na Lei 9985, de 18 de julho de 2000, a qual destina um item a especificar os objetivos dos Parques Nacionais, bem como suas atribuições e importância:
De posse do Governo, ou seja, do povo brasileiro, os Parques Nacionais têm como objetivos básicos a preservação dos ecossistemas naturais de muita importância ecológica, e também de beleza cênica. As áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, de acordo com a legislação vigente. Nele há possibilidades tanto de pesquisas quanto de visitação pública, estando ambas sujeitas às normas e regras dos órgãos responsáveis pela administração e ainda, nos planos de manejo, possibilitando, ainda, o turismo ecológico e o lazer, de acordo também com normas e regras anteriormente previstos em regulamentos específicos.
Neles, é possível o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de contato com a natureza, abrigando ainda a possibilidade de realização de pesquisas autorizadas pelos órgãos que administram os Parques Nacionais.
Os Parques Nacionais são criadas por órgãos da Administração Federal, enquanto os parques criados por órgãos estaduais ou municipais são os Parques Estaduais e os Parques Municipais.
CRIAÇÃO DE UM PARQUE NACIONAL
Ao iniciar um projeto para a criação de uma Unidade de Conservação, deve-se realizar um estudo técnico detalhado da área, observando-a nos mais diversos critérios e âmbitos – socioeconômicos, biológicos, físicos etc..

POLÍTICA DE LEGISLAÇÃO FUNDIÁRIA
Sempre prevaleceu a ideia de que uma unidade de conservação apenas exercerá sua plena função em proteger a natureza e suas belezas e garantir a preservação das espécies manejadas, sendo ela de posse e domínio do governo. Essa ideia, que não se estende pelas vias de conservação em todos os países, garante que o estado realize ações para delimitar integralmente as áreas que devem ser protegidas, estando elas ou não sob domínio privado.
Dessa forma, ao se delimitar uma área destinada à preservação, não a restringe de acordo com as propriedades da região, que estarão sujeitas a desapropriações, a fim de garantir o melhor destino àquelas terras.
Desde o primeiro parque nacional, fundado em 1937, diversos parques já foram fundados, no entanto, muitos deles mantém pendências fundiárias. Na verdade, os parques nacionais no Brasil apresentam-se um mosaico, exibindo diversas situações, tais como: terras de domínio do Estado ocupadas ou não por posseiros ou intrusos; terras de particulares, muitas vezes de domínio indefinido ou contestável, exploradas ou não; terras de particulares ocupadas pelos PNs ou por posseiros; terras devolutas ou "terras de ninguém" ocupadas pelos PNs ou por posseiros (GUATURA, CORREA & COSTA, 1997).
A situação de irregularidade territorial em que se encontram os Parques Nacionais do país dificultam em muito a aplicação rígida da legislação sobre as ideias de preservação ambiental, de tal maneira que as pendências fundiárias acabam interferindo no processo de manutenção e recuperação de áreas importantes à preservação da biodiversidade.
Entre os conhecidos e incluídos em taxionomias, destacam-se os seguintes: Parque Nacional da Amazônia, da Chapada Diamantina, da Chapada dos Guimarães da Chapada dos Veadeiros, da Ilha Grande, da Lagoa do Peixe, da Mocidade, da Serra da Bocaína, da Serra da Bodoquena, da Serra da Canastra, da Serra da Capivara, da Serra da Cutia, da Serra das Confusões, da Serra do Caparão, da Serra do Cipó, da Serra do Divisor, da Serra do Itajaí, da Serra dos Orgãos, da Serra Geral, da Tijuca, das Emas, das Nascentes do Rio Parnaíba, das Sete Cidades, de Aparados da Serra, de Brasília, de Cavernas do Peruacu, de Jericoacoara, de Pacaás Novos, de São Joaquim, de Sempre Vivas, de Tumucumaque, de Ubajara, do Araguaia, do Cabo Orange, do Catimbau, do Descobrimento, do Iguaçu, Itatiaia; do Jaú; do Monte Pascoal, do Monte Roraima, do Pantanal Matogrossense, do Pau Brasil, do Pico da Neblina, do Saint Hilarie Lange, do Superagui; dos Lençóis Maranhenses; dos Pontões Capixabas, Grande Sertão Veredas, Marinho de Abrolhos, Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, Restinga de Jurubatiba e Virua
Espalhados por diferentes Estados e diferentes regiões do Brasil, os Parques Nacionais muitas vezes dão o tom da paisagem, caracterizando um espetáculo do Brasil geográfico, social e ecológico que tanto apaixona os brasileiros quanto os estrangeiros que nos visitam. De norte a sul do Brasil, espalham-se os imensos parques nacionais, os quais visam à preservação do patrimônio ecológico nacional.
No Estado do Mato Grosso, as terras pertencentes aos Parques Nacionais ocupam uma área pouco significativa, se considerado o tamanho e a extensão do Estado como um todo. ,




2. PARQUES NACIONAIS NO ESTADO DE MATO GROSSO


No Estado de Mato Grosso há várias unidades de Conservação da Natureza, sendo muitas de proteção integral. Dentre os parques, destacam-se vários, alguns estaduais, outros municipais. Os Parque Nacionais são três: o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães e o Parque Nacional do Juruena.


2.1.PARQUE NACIONAL DO PANTANAL MATOGROSSENSE


Essa área de conservação da Natureza, sob o sistema de preservação integral, foi criada pelo Decreto nº 86.392, de 24 de setembro de 1981. Sua formação e especificidades têm como objetivo a proteção e a preservação do ecossistema da região do Pantanal, a diversidade biológica, a proteção dos biomas e a manutenção do equilíbrio e da integridade ecológica dos mesmos, preservando as características ecológicas do Parque.
Sua área de abrangência inclui a antiga Reserva do Cara-cará. Essa reserva serviu como base para as operações contra a caça de jacarés no Pantanal em plena década de 1980. Depois, dobrou a sua área ao incorporar pela compra uma fazenda da gados que já existia há muito tempo na região. A fazenda foi comprada pela União, pois passou a fazer parte das áreas de terras inundadas em virtude de mudanças climáticas ocorridas nas duas últimas décadas do século XX, por ações antrópicas diversas.
Em áreas adjacentes a esta viviam os ameríndios da etnia Guató. Acredita-se que eles tenham sido os primeiros ocupantes dessas áreas, além dos espanhóis que vieram da Bolívia no século XVI, ou seja, exploradores em busca de riquezas como ouro e pedras preciosas.
Essa unidade de Conservação da Natureza, o Parque do Pantanal Matogrossense tem delimitação de área de 135.000 hectares, cujo abrangência em linha de delimitação é de 260 quilômetros lineares.
Localizado no sudoeste do estado do Mato Grosso, em sua porção mais extrema, sob a jurisdição do município de Poconé, as águas e terras do Parque adentram pelo estado do Mato Grosso do Sul. O labirinto de riachos, rios e lagos confluem no encontro entre os rios Paraguai e Cuiabá.


Figura 1
Imagem disp. em: www.portalsaofrancisco.br

O clima da região apresenta características que tendem ao tropical continental, quente semi-úmido, com temperaturas que variam entre 0º e 42º C, sendo a média de 24º C, e abundância de chuvas ultrapassam a quantidade de um litro cúbico por ano (1.250 mm cúbicos), integrado a um regime tropical. Apresenta duas estações: uma chuvosa e outra seca. A primeira acontece entre outubro e abril de cada ano e a segunda, entre maio e setembro, tendo os maiores índices de precipitação nos meses de dezembro e de fevereiro.
Com relação ao relevo, é possível dizer que o Pantanal constitui-se como uma imensa planície que acumula águas e sofre um processo de cheias e vazantes da imensa quantidade de pequenos rios e riachos que o conformam. Plano e sujeito a inundações, o Parque do Pantanal Matogrossense possui uma rede de drenagem que se encontra sujeito às cheias e vazantes do rio Paraguai.
A formação da região em que se encontra o Parque do Pantanal Matogrosense deve-se à existência de uma grande depressão na crosta terrestre, que teria origem anterior à formação da cadeia dos Andes, formada por um delta interno onde vários rios da região dos planaltos lançam suas águas.
No período das secas, toda a região do Parque vista de cima torna-se um grande pontilhado de pequenos lagos e lagoas que são o refúgio de milhares de espécies de animais. Já na época das cheias, os rios despejam suas águas nessas terras, submergindo plantas e animais de hábitos lacustres.
Figura 2
Imagem disponível em: www.portalsaofrancisco.br


Não há, em todo mundo, qualquer região que lhe seja similar ou apresente suas características no conjunto dos ecossistemas nele abrigados. Por estar entre a região amazônica e o cerrado, o Parque apresenta elementos dos dois ecossistemas, incluindo animais da floresta e da savana, além de características de certas plantas. Buritis, cambarás e pau d'alhos, assim como aroeiras e louros podem ser encontrados nas áreas menos alagadas do Parque.
A flora da região é toda característica em função das constantes inundações e períodos de baixas das águas, quando a terra, antes submersa pelas águas apresenta-se à superfície. Caracteriza-se por uma área de vegetação mista, a qual apresenta tanto a vegetação do cerrado quanto da floresta semidecídua. A cobertura da terra seca denomina-se savana gramíneo-lenhosa, sendo acompanhada pela floresta semidecídua aluvial e pela floresta semidecídua de terras baixas.
Figura 3



Nesse Parque Nacional abriga-se a maior concentração de fauna das Américas, por causa das características diversas de seu ambiente natural e das áreas de transição (seca e úmida, em diferentes épocas) que há nos seus limites.
Nessa área de florestas e gramíneas, bem assim como nas águas, habita uma considerável quantidade de espécies de diferentes formas e tamanhos, desde os cervos do pantanal, as capivaras, as lontras, as ariranhas e jaguatiricas, as cotias, que são animais maiores até aves grandes como o tuiuiú, as garças de vários tipos e plumagens, além de outras aves muito pequenas.
Nas árvores mais altas, podem ser encontrados os jaburus, os cabeça-seca e o maguari. Na área dos remansos encontram-se as garças, as garças-reais e os colhereiros. Vivendo nos buracos ou no alto de paus secos, encontram-se as enormes araras azuis, além de aves de rapina.
Figura 4.
Garças e outras aves pantaneiras



Entre os répteis, destacam-se os jacarés, vivendo em locais mais inundados, que já estiveram em fase de extinção na década de 80 e hoje tomam conta de boa parte do cenário do pantanal, utilizados para manter o controle sobre os cardumes de piranhas.
Entre camaleões, e outros, além das cobras gigantes e outros tipos de animais, vivem uma quantidade enorme de peixes, aves muito pequenas, insetos, aracnídeos e outros animais, como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará, a ema e a cobra-sucuri, alguns raros, os quais tornam o Parque do Pantanal Matogrossense um dos ecossistemas mais importantes do mundo no sentido da preservação da biodiversidade brasileira e do planeta.
O Parque Nacional do Pantanal Matogrossense tem vivido situações que não favorecem sua preservação, como a caça ilegal de jacarés, capivaras, e onças-pintadas, apesar da vigilância dedicada à região, um fator que ameaça o equilíbrio ecológico. O fogo tem constituído um outro fator de prejuízo e ameaça à existência e reprodução da biodiversidade local, ameaçando não somente a flora, mas a fauna da região, tendo ocorrido em dois anos seguidos, o que acarreta desequilíbrio ecológico e afeta a integridade do ecossistema.
O turismo tem sido utilizado como uma das fontes de manutenção do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, cujos lucros são utilizados para a preservação do espaço e produz empregos e melhoria para a economia local, sem que se lance

mão de recursos predatórios dos recursos naturais existentes no interior das áreas de preservação do Parque.
O poder público mantém parcerias com as Organizações não-governamentais Ecotrópica e TNC, as quais trabalham no sentido de auxiliar e regularizar o turismo da região. O número de funcionários disponibilizados pelo IBAMA é insuficiente para cobrir uma área do tamanho do Parque do Pantanal, de maneira que há oportunidade para pessoas de má-fé agirem na área, traficando animais e roubando material genético para ser vendido ao exterior, como ocorreu em alguns casos no anos de 2009.
A cidade mais próxima do Parque é Poconé, que dista 100 quilômetros por via asfaltada e 147 quilômetros pela Transpantaneira até Porto Jofre, cidadezinha às margens do Rio Cuiabá. A partir daí, só é possível seguir de barco pelo rio até a sede do Parque. Via aérea, é possível pousar com aeronave pequena na Fazenda Acurizal (RPPN / Fundação Ecotrópica), e pegando depois mais meia hora de barco pelo rio até a sede do Parque. A unidade nem sempre está aberta à visitação pública, sendo melhor período para o turismo a época das secas.
Na sede do Parque há uma residência dos funcionários, uma almoxarifado, um escritório administrativo, um alojamento, um centro para visitas, uma sala de exposições, um auditório e escritório, há também sistemas de comunicação, como fax, internet, radiotransmissor de frequencia fixa, e carros e barcos para mobilização dos funcionários, além de motores e lancha
O contato com o homem pantaneiro permite conhecer uma face do Brasil que ainda sobrevive nas histórias e lendas que se abrigam nesses lugares ermos, como as lendas da gigante serpente aquática que derruba terras das barrancas dos rios, sobre lagos e lagoas que não suportam a presença de seres humanos gritando e se enfurecem. Lendas de onças, de cobras sucuris aterrorizantes e histórias mirabolantes de pescadores e de caçadores destemidos ou medrosos permeiam o imaginário dos povos que convivem nas imediações do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, dando-lhe uma cor local, tão brasileira quanto suas espécies.

O Estado do Mato Grosso possui ainda outros parques importantes. E um deles é o Parque da Chapada dos Guimarães.




PARQUE NACIONAL DA CHAPADA DOS GUIMARÃES



         O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães foi criado pelo Decreto nº 97.656, do dia 12 de abril de 1989, e localiza-se no Estado de Mato Grosso, a 67 quilômetros da cidade de Cuiabá. Neste lugar situa-se o Centro Geodésico da América do Sul.
Figura 5
Mapa do Parque Chapada dos Guimarães em MT1
1Disponível em

O Parque está localizado em uma região de planalto que separa duas bacias hidrográficas: a do Rio da Prata e a Bacia do Amazonas.
Nos limites geográficos do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães localizam-se os nascedouros de importantes rios que atravessam a planície cuiabana, a exemplo do rio Aricazinho, o rio Coxipó, o rio Mutuca e o corrégo Salgueira, entre outros.
Ele tem uma área total de 33.000 hectares, cujo perímetro é de 110
quilômetros. O clima na área onde se localiza é tropical, quente-semiúmido, apresentando quatro ou cinco meses de período de seca durante o ano, cujas temperaturas variam entre 42ºC e 0ºC, com médias de 24º C. O volume de chuvas apresenta índices entre 1.250 milímetros e 1.500 milímetros cúbicos anuais. A quantidade torrencial de chuva, geralmente é suficiente para compensar o período das secas, e após a chuva, toda a vegetação se refaz, renasce a vida no Parque, a cada ano, a cada ciclo de vida.

Figura 6
Formação Rochosa disponível em


                O relevo do lugar é um plano no topo da chapada, cercada por escarpas íngremes em suas bordas, apresentando formato de tábula (tabular), com altitudes que oscilam entre 600 e 800 metros acima do nível do mar. Sua superfície é antiga, cuja constituição é arenito e sedimentada durante os períodos geológicos terciário e quaternário, de maneira que originaram no local um latossolo vermelho-amarelado.

               No Parque Nacional da Chapada dos Guimarães predomina a vegetação de savana ou cerrado, característica das região centro-oeste do Brasil, sendo uma parte ocupada por floresta-de-galeria e, em escala inferior por floresta submontana, cujas espécies se reproduzem nas escarpas e nas encostas da chapada.
A flora é rica, composta por diversas espécies de gramíneas, como a grama-forquilha, o capim-flechinha e o campim-mumbeca, que cobrem as partes mais  baixas da chapada. No alto dela, encontram-se vários tipos de árvores, entre elas o pequi, a peroba, a lixeira, o murici e o pau-santo, entre outras espécies importantes do Parque.


Figura 7

Formações rochosas. Disp. em

A fauna da região é muito diversificada, uma vez que abriga tanto animais grandes como pequenos. Destacam-se entre os seus moradores, animais que já estiveram na lista dos ameaçados de extinção, como o tamanduá-bandeira, o lobo guará, o veado-campeiro, entre outros. Além destes, encontram-se na área tatus-canastra, cágados e o jacaré-coroa, o gato-palheiro, o cachorro-do-mato-vinagre, entre outras espécies de maior porte.
Aves de diferentes espécies habitam as aves e paus altos da região, como a águia-real, o gavião de penacho, o gavião uiraçu, e o socó-boi.
Aves que possuem belos cantos, como a pipira, os saís, o papo-bicudo, além de outras com plumagens coloridas e encantadoras, como as araras e o tucano-açu.
Figura 8

Lagoa Azul Parque Nacional Chapada dos Guimarães

Disponível em www.brasilturismo.com.br

Entre as belezas naturais do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, uma linda queda d'água, o Véu de Noiva, medindo cerca de 86 metros de altura enfeita a paisagem do lugar, situada entre paredões verdes ou vermelho-amarelados e grutas secretas, cheias de mistérios, misticismos e lendas que revelam o modo de ser do povo do interior do Mato Grosso. Entre as maravilhas, destaca-se a Lagoa Azul.

Figura 9

Véu de Noiva – queda d'água de 19 m. de altura
Disponível em

O Parque é aberto à visitação de turista e, embora não possua estrutura em seu interior para abrigar uma quantidade grande de pessoas, conta com o suporte da infraestrutura da cidadezinha de Guimarães, que fica a somente 10 quilômetros do Parque Nacional. Nela, há infraestrutura suficiente para acolher tanto visitantes quanto pesquisadores que se interessem em realizar pesquisas no local.
As pesquisas a serem realizadas devem estar amparadas por autorização dos órgãos responsáveis pela administração do Parque e de acordo com as normas e regras contidas no Plano de manejo da unidade de conservação integral.

Figura 10
Banner com belezas cênicas do Parque Nacional Chapada dos Guimarães, por Caic Goulart.

PARQUE NACIONAL DO JURUENA


O Parque Nacional do Juruena é uma unidade de conservação integral, localizada no noroeste do Mato Grosso e sua extensão é de 300.000 hectares. Foi criada em função de reter o avanço do Arco do Desmatamento que segue da região de fronteira em Rondônia até o alto do Pará, para onde avança a fronteira agrícola.
O objetivo principal da criação do parque está relacionado à preservação de uma parcela ainda não degradada destas áreas, contribuindo para a restrição no avanço das ocupações de terra de forma desordenada, cuja criação da unidade de conservação de proteção integral encontra-se inclusa no território que fica compreendido entre o rio Teles Pires e o Rio Juruena, e o extremo sudoeste do estado do Amazonas.
Sua localização geográfica ocupa terras dos municípios de Maués e Apuí, no Estado do Amazonas, e Aripuanã, Cotriguaçu, Nova Bandeirantes e Apiacá, no Estado de Mato Grosso. Em sua faixa central, a Reserva é cortada pelo Rio Juruena, que tem ali em seu trecho mais corredeiras e cachoeiras, apresentando alta diversidade de ambientes e ecossistemas. Segundo o IBAMA, o mapeamento das áreas de demarcação do Parque Nacional Juruena como unidade de conservação da natureza de proteção integral, visa desempenhar:

Serviços e funções ecológicas que a área desempenha são, por exemplo, a proteção da cobertura vegetal e dos solos, que na região são em geral arenosos e muito susceptíveis à erosão; a proteção dos cursos d´água locais, fundamentais para a manutenção da vazão dos rios e da qualidade da água; a manutenção do clima local, o controle das queimadas, de fumaça no ar e redução do efeito estufa. (IBAMA, 2006)

Sua vegetação pode ser descrita como um mosaico de formações vegetais e ambientes florestais abertos que variam e se alternam com muita rapidez; sendo 53, 4% da área do Parque coberta por Floresta Ombrófila Densa e Aberta, enquanto outras formações admitem um contato com esta floresta nos outros 36,3% de área restante.


Figura 11
Cachoeira São Florêncio - Rio Juruena - MT, de Cristiane Figueiredo
 
Há outras formações vegetais que se assemelham a campinarana, que ocorrem tanto em substrato de solo arenoso quanto em terreno rochoso.
Às margens do Rio Juruena há a ocorrência de floresta Ombrófila Densa e Formação Pioneira com grande influência das vazantes dos rios, ou seja, influência fluvial, acontecendo inclusive a ocorrência de igarapés.


Figura 12

Igarapé Água Preta, de Cristiane Klein

Existem inúmeras espécies floríferas que ocorrem no interior do ambiente florestal, embora outras espécies de grande beleza cênica também ocorram em áreas fora da grande floresta. Os ambientes não florestais também são de grande exuberância cênica, cuja beleza atrai os olhos de turistas e habitantes das áreas.

Figura 13

Foto Borboletas às Margens do Juruena

Foram registradas cento e três espécies de borboletas e mariposas Lepidóptera, além de cupins e formigas de diferentes espécies, enquanto há um grande número de espécies ainda em fase de identificação.
As borboletas das margens do Juruena já se tornaram uma espécie de cartão postal da região, tamanha a quantidade em que aparecem. O colorido de suas asas e os movimentos em torno da vegetação e mesmo sobre água, na prainha dão ao lugar um tom singular, diferenciado de qualquer outro ambiente, levando alegria.
Além destas espécies, artrópodes, outras, como anfíbios e répteis também são abundantes no Parque Nacional Juruena. São cerca de 40 tipos diferentes de anfíbios e 40 répteis, dos quais se destacam algumas espécies amazônicas.
Figura 14
Borboletas às margens do Rio Juruena


Estes costumam às vezes a apresentar aparências curiosas e, algumas vezes, diferente da ideia do senso comum que se tem a respeito deles, são dotados de grande beleza natural.

Figura 15

Além de répteis e anfíbios encontram-se nos limites do Parque cerca de 412 espécies de aves, sendo que 26 desses tipos só ocorrem entre os rios Madeira e Tapajós, algumas raras como o Papagaio-de-cabeça laranja, a mãe-de-teocade-cara-branca, a cambarixa cinzenta, o uirapurú-de-chapéu-branco, o saripoca-de-gold, o jacamin-de-costa-verde, e a tiriba-pérola, entre outras espécies características da região.
Espécies mais raras como o barranqueiro-de-topete, a trovoada-listrada, a maria-picaça, e ainda a freirinha-castanha e o rapazinho-estriado. Estas espécies ocorrem mais no tipo de floresta conhecida com Ombrófila Aberta com Tabocas, do gênero Guadua.


Figura 16


Beija-flor verde, de Dante Buzzeli, 2006


Outras aves de grande porte, como os gaviões, mutuns, jacamins, e araras, além do gavião-real Harpia, do gavião-de-penacho, do urumutum e do papagaio-de-garbes, que se encontram como espécies privilegiadas na região.
Tem-se consciência que a preservação dessas espécies encontra-se diretamente associada à preservação de seus sistemas ecológicos, ou seja, seus ecossistemas, os quais devem ser protegidos, especialmente nas épocas de reprodução da vida.
Assim, o parque mantém uma imensa quantidade de ninhos nas árvores, as quais não podem ser derrubadas, para a garantia da reprodução.

Figura 17
Gralha picassa, de Dante Buzzelli, 2008

No Parque encontram-se também 101 espécies de mamíferos que vivem, pertencentes a 10 ordens diferentes, entre os quais se destacam diferentes subespécies de gambás e cuícas, tamanduás e bichos-preguiças, tatus, sauins e macacos, roedores de diferentes tipos, gambás e morcegos, antas, veados e porcos do mato, e, ainda, o lendário boto amazônico. A existência do mão-pelada ainda está para ser confirmada, do qual foram encontradas apenas as pegadas.

Figura 18

Foto de pequeno anfíbio raro

Algumas espécies encontradas no Parque Nacional do Juruena são abundantes, como o tatu-galinha e a queixada, que se inserem na cadeia alimentar como presa dos carnívoros maiores. Entre estes também aparece o zogue-zogue, 
que funciona como alimento para vários tipos de carnívoros. Ainda entre os abundantes estão os veados, as pacas, as cutias, a anta Tapirus e o tatu-15-quilos, os quais aparecem em quantidade na região.
Entre as espécies ameaçadas encontradas na reserva estão o tatu-canastra, o tamanduá-bandeira, a jaguatirica, o maracajá-mirim, a onça-pintada e a ariranha. Outras espécies necessitam urgentemente de cuidados para que não desapareçam. Na reserva encontram-se mais de quinze espécies de macacos de grande porte, além de outras espécies menores, que vivem nas imediações dos rios do Parque Nacional do Juruena. De acordo com levantamentos realizados pelo Ibama:

                                         
É possível encontrar nas margens dos rios Teles Pires e Juruena pelo menos 17 espécies de macacos, pertencentes a 10 gêneros diferentes A composição da fauna de primatas altera-se de forma impressionante entre uma margem e outra dos rios. Os raros estudos realizados nessa área, ao mesmo tempo em que descrevem um alto índice de diversidade de primatas, revelam a existência de uma zona desconhecida no interflúvio dos rios Teles Pires e Juruena, onde há fortes indícios da existência de mais espécies, inclusive de espécies novas para a ciência.
(IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, 2006)

Figura 19
Foto da Cachoeira do Roncador
Cristiane Figueiredo

 
Quanto aos peixes, estes se organizam em 127 espécies diferentes, São
peixes de água doce, com formas variadas, que possuem grande valor comercial, o que preocupa os organismos federais de conservação, uma vez que a pesca predatória às vezes se antecipa à época da piracema, impedindo que as espécies subam os rios e desovem nas cabeceiras, o que tem preocupado pesquisadores e ambientalistas, bem como as populações tradicionais que buscam preservar esse período de reprodução das espécies na tentativa de preservação e recuperação de áreas invadidas. Segundo o IBAMA, a criação da reserva foi importante:

Para peixes e outros grupos da biota aquática é mapeada como de importância

 extrema, pois protege rios que drenam o planalto cristalino (Escudo Brasileiro) com

 corredeiras e cachoeiras, um dos tipos de ambientes-chave que abrigam espécies

 endêmicas e sustentam uma grande biomassa de peixes. Esta mesma importância

 biológica extrema é reconhecida para os répteis e anfíbios e estudos recentes

 revelaram alta diversidade de espécies, além de proporcionarem a descoberta de

espécies novas e raras, como Anolis phyllorhinus, várias espécies de Phyllomedusa

, Phrynohyas. Algumas delas, raras em outras áreas, são comuns na região. (IBAMA,

2006)

O Parque Nacional do Juruena é o mais original em termos de conservação de ambiente natural, pois está quase intocado pelo homem, uma vez que se encontra localizado em áreas vizinhas a diversos parques indígenas
Certamente por essa inusitada capacidade de manter-se afastado da depredação e da curiosidade humanas, em seu interior formem-se e reproduzam-se espécies curiosas também encontradas no Parque Nacional, a exemplo de certos tipos de fungos de rara beleza que mais se assemelham a flores, também aparecem em um cenário único.
Estudiosos encontraram espécies de rara beleza, como fungos e mini-sapos e rãs que habitam essa unidade de conservação integral da Natureza, os quais sempre nos causam admiração e impressionam os nossos sentidos pela fragilidade da vida que se ordena no interior desses ecossistemas.


Figura 20
Fungos encontrados no Parque Nacional Juruena pelo próprio fotógrafo.
             E, se ao homem foi dado o poder sobre as outras vidas no planeta, cabe a ele também cuidar e proteger os mais frágeis, como as espécies animais e também os vegetais que necessitam urgente de sua proteção para que possam sobreviver e ao mesmo tempo, manter-nos vivos, por meio dos benefícios que produzem à atmosfera e ao meio em que vivemos.
                Integrada ao meio, e tratando de preservar também a Natureza, muitas populações tradicionais vivem no entorno do Parque Nacional do Juruena, dentre os quais os índios da etnia arara de Aripuanã. E, ainda, os Rikbaktsa, também conhecidos como canoeiros, que têm seu Parque Indígena na divisa com o Parque Nacional.
              A região é praticamente povoada por indígenas, cujas aldeias já foram incluídas nas Terras Indígenas delimitadas na região, contando com uma única cidadezinha em que vive uma comunidade não indígena, conhecida como Vila da Barra, situada na margem esquerda do Rio Tapajós, um pouco adiante da região onde se encontram o rio Teles e o Juruena.


              
Populações locais no Rio Juruena – Etnia arara de Aripuanã
Fotos: CIMI. Antônio Arara S. Silva

A área de preservação encontra-se entre duas fortes frentes de expansão que são o norte de Mato Grosso e o Sul da Transamazônica, cujo processo de ocupação irregular de terras ganha magnitude a cada dia. A situação na região é bastante complicada e insegura.
Entre suas inúmeras belezas naturais, o Parque Nacional Juruena abriga dezenas de corredeiras e cachoeiras, incluindo a queda no rio Juruena, o Salto Augusto, de 19 metros de altura,com desniveis, cujo nome é uma homenagem ao Capitão-General João Carlos Augusto de Oeynhausem de Gravemburg, comandante que enviou um grupo do exército ( ainda imperial) à exploração do território no começo do século XIX.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LEI 9.985, 2000. Disp. em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9985.htm
Parques da Região Centro-Oeste. Disp. Em: fonte: www.brasilturismo.com
IBAMA. Consulta Pública. Parque Nacional do Juruena, 2006. Disp. em www.ibama.br/portal.











GREGÓRIO DE MATOS E GUERRA E O PROCESSO DE D. MARIA BERCO NO ROMANCE BOCA DO INFERNO, DE ANA MIRANDA

Rosangela Manhas MANTOLVANI 1

Ana Miranda, escritora brasileira, tem uma série de romances publicados, dentre os quais alguns são históricos. Embora a corrente de romances históricos tenha atingido o seu ápice no século XIX (LUKÁCS, 1965), e já no final do século XX o romance histórico se revelasse em plena decadência, acentuada pelo advento e consagração das Vanguardas Modernistas na Europa, nos últimos anos do século XX, o seu reaparecimento seria acompanhado de profundas marcas e diferenças em relação aos modelos anteriores, seja pela questão estética, seja pela forma como a História oficial é apresentada aos leitores, cujo caráter de oficialidade se apresenta em constante questionamento (MENTON, 1995). Assim, Boca do Inferno, romance publicado pela primeira vez em 1989, traz em seu título a alcunha pejorativa dada ao poeta baiano Gregório de Matos e Guerra por seus desafetos políticos e outros grupos que se constituíram alvos prediletos das sátiras picantes do brilhante advogado. Nascido em Salvador, em pleno século XVII, o filho de senhor de engenho representa, na literatura brasileira, a marca de uma crítica que tanto tem razão de ser naquele momento histórico, como na atualidade. Em Boca do Inferno, Ana Miranda reconstrói a história de Gregório de Matos e Guerra, certamente apoiada em certos escritos compostos à época, sem deixar, no entanto, de fazer jus à fantasia que os romances históricos do século XX projetam em suas configurações estéticas, imaginando com vivacidade a vida que certamente teria levado o satírico subversivo em um país que não lhe reconhecia nem os méritos nem a capacidade, consequência da atitude crítica, com pretensões moralizantes do advogado e poeta diante de uma sociedade corrupta. A intervenção de Gregório de Matos no processo de D. Maria Berco, detalhe ficcional, tem sua encenação certamente suportada em fatos supostamente reais, motivo pelo qual a argumentação do jurista com o desembargador João da Rocha Pita apoiou-se sobre as Leis da época, mais precisamente, sobre as Ordenações Filipinas, pois a cronologia processual coincide com o período da conhecida União Ibérica, fase do reinado da dinastia filipina de Espanha sobre Portugal e todas as suas colônias, inclusive o Brasil. O presente artigo aborda os principais argumentos utilizados por Gregório de Matos e Guerra em defesa de D. Maria Berco, a qual se encontrava detida e precipitadamente condenada à morte.


PALAVRAS-CHAVE: Novo Romance Histórico; Ana Miranda; Gregório de Matos; Ordenações Filipinas; Processo ficcional.

1. Introdução



      Pouco se sabe concretamente da vida de Gregório de Matos e Guerra, embora o advogado e poeta baiano tivesse um biógrafo que reescreveu seu percurso de vida quase um século depois de sua morte. Manoel Pereira Rabelo, o biógrafo, revela em seu livro Vida do Excelente Doutor Gregório de Matos e Guerra o percurso do poeta sucintamente, evocando muitos acontecimentos particulares, tanto no que diz respeito às idéias que teriam originado as sátiras do poeta, quanto sobre o lado pessoal da vida do escritor, especialmente seus infortúnios junto aos poderosos do Brasil. Ele, porém, não se esquece de elogiar o seu biografado sempre que julga ser necessário, exemplificando os casos em que Gregório teria obtido sucessos.
      Fato é que, a abordagem deste artigo não tem como elemento principal a vida do poeta em si, mas a abordagem de episódios ficcionais em que Gregório de Matos e Guerra surge como personagem principal, envolvido em fatos históricos ocorridos na Bahia do século XVII, no romance Boca do Inferno, de Ana Miranda. Nele, as desavenças entre os Ravascos e os Teles de Menezes, sob o governo do vulgo Braço de Prata, constitui o elemento desencadeador do enredo.

     Chamava-se o Governador Antônio de Souza Menezes, mas não era parente dos Teles de Menezes, embora tivessem alianças políticas, entre outras alianças nem sempre prováveis. O assassinato do alcaide Teles de Menezes constitui o episódio ficcional encadeador de uma série de processos e assassinatos ocorridos durante o período do governo de Antônio de Souza Menezes, o Braço de Prata.

 2. A História, a ficção e a aplicação da Lei


Que falta nesta cidade? Verdade.
Que mais por sua desonra? Honra.
Que mais falta que se lhe ponha? Vergonha. (GREGÓRIO DE MATOS)

     No romance Boca do Inferno, o assassinato do alcaide é cometido por oito homens encapuzados, porém somente o nome de Antonio de Brito, personalidade histórica residente na cidade da Bahia (nome com que se chamava a atual Salvador) é mencionado imediatamente, entre outros acusados que vão surgindo ao longo do enredo; e, principalmente, a partir das investigações realizadas displicentemente e de forma aterradora pelo próprio irmão do assassinado, que assume também o cargo do falecido.
       Durante o ataque, o alcaide tivera a mão decepada e Antonio de Brito encarregou-se de recolhê-la. Assim, entregou a mão de Francisco Teles de Menezes a uma personagem ficcional, Maria Berco, uma empregada da casa dos Ravasco, para que ela se desfizesse de uma prova, assim confundindo as investigações. No entanto, ao perceber o anel de muito valor no dedo da mão cortada, Maria Berco desiste de jogá-la no rio com o anel ou mesmo em um depósito de lixo. Retira o anel e o vende a um comprador de jóias. Denunciado, o comprador, nega que tenha roubado o anel. O fato de ter vendido o anel do alcaide faz com que sobre ela recaia um processo por participação no crime, além de ser acusada de prostituição. É pela voz do narrador em terceira pessoa que o leitor toma conhecimento das Leis da época, vigentes em Espanha, Portugal e extensiva às colônias:


O Código que regia as tramitações do direito na colônia, o mesmo de Portugal, era uma recompilação das Leis extravagantes de direito canônico e das Ordenações afonsinas e manuelinas. Esse sumário resultou nas Ordenações filipinas, publicadas no tempo de Felipe I de Portugal – e III da Espanha. (MIRANDA, 1990, p. 237)


       Esse conjunto de Leis segmentava o exercício do direito em função da casta que os indivíduos ocupavam naquele período histórico. Assim, um mesmo delito era considerado em função tanto da gravidade quanto da posição que o sujeito ocupava no interior da sociedade, como garante José Fábio R. Maciel:


A norma editada seguia a estrutura dos Decretais de Gregório IX, dividindo-se em cinco livros que continham títulos e parágrafos: (I) Direito Administrativo e Organização Judiciária; (II) Direito dos Eclesiásticos, do Rei, dos Fidalgos e dos Estrangeiros; (III) Processo Civil; (IV) Direito Civil e Direito Comercial; (V) Direito Penal e Processo Penal. Destaca-se o livro II, que demonstra a principal característica dos direitos do Antigo Regime, ou seja, a existência de normas especiais para cada uma das castas que compunham a sociedade daquele período. (MACIEL, 2006)


      Sobre o rigor destas leis, tanto o romance Boca do Inferno oferece ao leitor o rigor com que eram empregadas, quanto outros estudiosos da História do Direito explicam que esse conjunto de Leis, muitas vezes, repleto de contradições, terminou por interferir na elaboração dos códigos do Direito brasileiro. Assim, José Fábio R. Maciel escreve que:


As penas previstas nas Ordenações Filipinas eram consideradas severas e bastante variadas, destacando-se o perdimento e o confisco de bens, o desterro, o banimento, os açoites, morte atroz (esquartejamento) e morte natural (forca). Mas, como típica sociedade estamental da época, não poderiam ser submetidos às penas infamantes ou vis os que gozassem de privilégios, como os fidalgos, os cavaleiros, os doutores em cânones ou leis, os médicos, os juízes e os vereadores. (MACIEL, 2006)

     Observa-se pelo excerto destacado acima que a Lei nunca fora igualitária para todos, de maneira que a própria história do Direito revela duas medidas diferentes aplicadas às pessoas pelo mesmo delito cometido. Essa tradição só seria interrompida com a Independência do Brasil, quando os decretos das Ordenações Filipinas são pouco a pouco substituídos. Os casos nem sempre poderiam ser julgados pelos escritos das Ordenações, pois havia muitos casos omissos, por isso “os tribunais deveriam ter à sua disposição o texto das Ordenações, o Corpus Iuris Civilis de Justiniano (glosas de Acúrsio) e os textos de Bártolo” (MACIEL, 2006). E, se nenhum destes instrumentos fosse capaz de solucionar a questão, então apelava-se ao Rei.
     Assim, em Boca do Inferno, as duas principais personalidades literárias do século XVII, Gregório de Matos e Guerra e seu contemporâneo, o padre António Vieira, aparecem como personagens histórico-ficcionais do romance de Ana Miranda. Circulando por esse ambiente de hostilidades entre grupos politicamente poderosos, dos quais um e outro terminavam por participar, muitas vezes, de forma decisiva, as personagens histórico-ficcionais criam vida e nos permitem entrever como funcionavam os processos e a aplicação das Leis na cidade da Bahia, capital do pais.
       É na capital São Salvador da Bahia de Todos os Santos, conhecida vulgarmente por cidade da Bahia, que se encontra a Casa da Relação e a Casa da Suplicação.
      Após o assassinato, todos os que mantinham alguma relação com os Ravascos ou com os outros envolvidos, como Antonio de Brito, Luiz Bonicho, Manuel de Barros, além de outros, trataram de esconder-se imediatamente, uma vez que seriam caçados pelo irmão do alcaide morto, pois não se sabia a identidade de todos, de maneira que as investigações trabalhavam com hipóteses, prisões, interrogatórios e torturas. As leis da época permitiam esse tipo de procedimento, ou vamos ao que diz o narrador sobre a aplicação das penalidades:

Os problemas levados ao Tribunal eram o retrato da cidade. O poder ficava restrito a um pequeno grupo, quase sempre impune; a população desobediente quanto às normas de convivência estava sujeita a castigos que iam desde a multa em dinheiro, exílio, galés, até marcação com ferro quente, espancamento, enforcamento e decapitação. (MIRANDA, 1990, p. 254)

     Dessa maneira, o que se pode depreender do texto é que a época estudada contava com a Legislação do Ancién Régime, cuja Revolução Francesa foi capaz de derrubar e, juntamente com a classe que a referendava, a nobreza, as Ordenações também sofreram uma queda. Apesar, porém, dos castigos radicais que eram aplicados em casos de delitos considerados graves, a Metrópole não permitia que suas Colônias contassem com grande número de advogados. Articulando uma crítica à censura da prática do Direito na Colônia, entre outras críticas que o narrador consegue instalar no enunciado, cujos subentendidos podem se detectados com facilidade, o leitor é comunicado sobre fatos históricos que o conduzem a conhecimentos que dizem respeito exclusivamente à área do Direito, a exemplo da relação estabelecida entre o exercício da advocacia no Brasil, que à época era colônia de Portugal e, pela União Ibérica, também da Espanha naquele período histórico, quando o narrador buscando localizar o leitor e oferecer-lhe o panorama histórico em que se encontravam inseridos os suspeitos ou acusados de envolvimento no crime do alcaide, no romance:

Todas as outras capitanias estavam sujeitas à Relação da Bahia. A Coroa rejeitava qualquer proposta no sentido de se criarem tribunais separados em outras regiões, alegando insuficiência de recursos financeiros para o sustento dos juízes. Acreditavam, em Portugal, que o Brasil não deveria possuir grande número de letrados, pois a colônica “necessitava de soldados, não de advogados”. Havia poucos advogados na cidade. Sem o certificado de exame no Desembargo do Paço ou oito anos de estudos em Coimbra não se podia advogar na Bahia. A maior parte dos advogados, porém, impossibilitada de ir à Universidade por não ser de família de muitos recursos, era de sujeitos não formados nem examinados, que burlavam as regras. (MIRANDA, 1990, p. 254).


     Pelo excerto exposto, é possível concluir que um cidadão baiano pobre e sem recursos, em caso de acusação por qualquer crime, dependia de advogados não qualificados para livrar-se do processo, e ainda, em caso de não dispor de bens, encontrava-se sujeito a passar o resto de sua vida na cadeia, sem ao menos contar com um defensor que lhe diminuísse a pena. Apesar disso, o romance descreve uma situação de violência na cidade, haja vista o número de processos enumerados pelo narrador:


Gregório de Matos leu o rol de causas que haviam tido audiência naquele ano. Eram aproximadamente duzentos assassinatos ou ataques criminosos, como morte a punhaladas, a estocadas, a espingarda; cerca de trezentos banimentos, a maior parte sobre negros e mulatos, pois muitos escravos praticavam atos criminosos por ordem de seus senhores, ficando com a culpa; por volta de mil perdões e fianças; mil e seiscentos delitos leves; mil e seiscentas disputas cíveis; testamentos ou negócios do tesouro; mil setecentas e tantas ações criminais no total. Para uma população de cerca de cem mil pessoas era bastante. (MIRANDA, 1990, p. 254)


     Apesar do rigor das Ordenações Filipinas, e dos abusivos honorários dos grandes juristas que se encontravam na Colônia, os quais tinham clientes muito importantes, o povo mais simples não deixava de praticar seus delitos mais ou menos graves, desfavorecendo a vida em uma cidade pequena e afastada das regalias de época às quais se tinha acesso somente na Europa.

3. A personalidade histórica Gregório de Matos e os processos


     Atentando para a biografia do jurista Gregório de Matos e Guerra, publicada por Manoel Pereira Rabelo, entende-se que a formação requintada do filho de senhor de engenho permitiu-lhe fama quando ainda cursava a Universidade de Coimbra, onde se formou. Dessa maneira, alguns dos casos solucionados pelo poeta baiano ficaram na memória de pessoas influentes, as quais se tornaram verdadeiras lendas do jurídico brasileiro e português, mesmo após todas as desconsiderações que sofreu em sua vida o escritor baiano. Uma delas aconteceu quando o jurista ainda atuava em Portugal, como narra Rabelo na biografia:


Defendia este letrado hum pleito acerto titular tão columozo, que o conduzia hum mariolla, quando era necessario. Era cauza civel, sobre a posseção de hum Morgado, e vaticinava o letratissimo Advogado contra a sua parte, e só o contentava com lhe empatar a execução; e neste empenho nenhuá esperãça lhe dava o seu Patrono, e os mais celebrados da corte: mas por animar o affito cavalheiro, rezolveo dizerlhe que fosse ao Doutor Gregorio de Mattos, que só elle era capaz de confiar o remedio paciativo daquella cauza, porque de sua viveza, e sciencia, fiava todo o bom sucesso; dado, que o ouvesse de ter aquelle famozo labyrinto. Aseitou o cavalheyro, a persuação, e conduzido os autos para a caza do nosso Praticante, com os mayores emcarecimentos, que pode então o Fidalgo explicarlhe: Suplicoulhe que com toda atenção chuydado pozece-os olhos naquelle processo, que nelle estava a sua pendição, e que examibnache os meyos, e incidentes para the formar os emburgos, cuja extenção se derigia a compozição com a parte vencedora, por meyo de huá composto converção entre ambos.Era meyo dia quando se despedio o cavalheyro; e não lhe sofrendo descanço o seuy alvoroço; antes da hora de vespera, partio para a caza do seu Advogado novamente eleito, para examinar se se desvellava, ou não com os autos: mas achando-o a janella, palitando sobre o jantar; se afligio bastantemente o cavalheyro: e rompeo em queyxas do pouco cuidado, que lhe dava hum feito de tantas circunstancias e tanta valia, e o que mais o afligia, era o termo deserperamtorio, que se fingava brevemente ssoceguese vossa Excellencia, lhe dice o novo letrado, os autos ja estão vistos, e nelles temos o remedio que tanto dezejava: e muyto mais abantejado; porque neste termo de autuação temos embargos de nullidade a todo o processo. Como pode ser? Replicou o Fidalgo? Porque no anno aqui mencionado corria hum decreto de El Rey Felippe IV de Castella, e III de Portugal, que condenava por nullos todos aquelles processos que principiassem em papel, que não tivesse o sello das armas de castella, ou fosse instromento, ou qualquer papel publico, e como este de que tratamos alcançou aquelle tempo em que se pormulgou o decreto, e nelle, senão acha o sello das armas, tudo o mais nelle contheudo hé nullo. Com esta sutileza se trocaram as fortunas dos pleiteantes, e o nosso novo letrado se acreditou por Aguia de melhor vista; porque formando novos embargos de nuclidade lhe forão recebidos, e afinal se julgarão provados, ficando todo o processado de nenhum efeito, nem vigor, com grande admiração de toda a corte, e mayor aceitação entre os Doutos. Subio a Juis de civel de hum bayro, cujo não teve a certeza do lugar. (RABELO, 2011 – Edição sem revisão – www.filologia.org)

     Usando de recursos que a Lei lhe permitia e conhecendo não somente os Códigos, mas principalmente as exigências da Legislação em relação aos documentos que deveriam ser encaminhados ao Tribunal, Gregório de Matos conseguiu invalidar uma pilha de processos que se arrastavam durante anos, apenas pelo fato de não conterem um selo das Armas (Brasão Real) de Castela, anulando todo o conteúdo do processo. Entre outras atitudes consideradas brilhantes do jurista, encontram-se outros processos que terminaram por constituir lenda sobre sua pessoa, além dos elogios que lhe dedicavam alguns mestres da Universidade de Coimbra, a exemplo do Doutor Belelor da Cunha, de maneira que foi nomeado Desembargador da Relação da Bahia, quando ainda estava em Portugal. Porém, sua justeza ou prática da Verdade acima de tudo, trouxe-lhe sérios problemas. Enviado pelo príncipe regente, D. Pedro I, de Portugal, ao Rio de Janeiro para proceder a devassa contra o Governador do Rio de Janeiro, Salvador Correa de Sá e Benevides, (homem que comandou a esquadra que expulsou os holandeses de Angola), Gregório de Matos negou-se a cumprir tal ordem, o que o colocou em desagrado do poder real, de maneira que perdeu o cargo que ocupava de Desembargador da Relação da Bahia.

       Muito se tem especulado sobre o que de fato teria levado Gregório de Matos a recusar tal ordem real, porém, há muitas hipóteses, das quais a mais provável seja o possível respeito que Gregório teria pela figura do governador, ou simplesmente por não considerar o pedido justo. Segundo seu biógrafo, o caráter de Gregório de Matos e Guerra demonstrou sempre um total desprezo por questões práticas, como o acúmulo de capital ou a cobrança de honorários com valores absurdos, o que conota também seu pouco interesse pelo dinheiro. Dessa maneira, as hipóteses relacionadas com o pagamento de seu trabalho, o qual não lhe teria antecipado o príncipe, não parecem ter um suporte legítimo.
      Apesar de grande jurista, a excessiva simpatia de Gregório de Matos e Guerra pela poesia satírica – subgênero poético muito importante no século XVII-, entre outras atitudes morais, trariam ao poeta uma série de inimigos que, com o passar do tempo, aproveitar-se-iam de determinadas situações para incriminá-lo. Dentre as principais sátiras que escrevia, encontravam-se poemas críticos à cidade da Bahia, aos seus juristas e juízes, além de críticas severas ao próprio Governador, o qual era identificado pelo nariz, além de outros detalhes puramente estéticos, como a falta do Braço que perdera em batalha. Sobre os homens que promoviam a justiça na cidade da Bahia, escreveu:

O que nos há de suceder
nestas montanhas
com ministros de leis tão previstos
em trampas e maranhas? (GREGÓRIO DE MATOS)

      É certo que essa crítica de Gregório de Matos procedia, porém, os que se sentiam incomodados por ela, a cada dia tratavam de articular para prejudicá-lo, impedindo que tivesse uma convivência honrada e feliz no meio social em que vivia. De acordo com João Adolfo Hansen (2004, p.14-26), é preciso compreender os motivos da sátira menipéia para compreender a crítica de Gregório de Matos, de tal maneira que certos detalhes que parecem caricaturescos se mostravam em poemas de outros satíricos, como uma maneira de consagrar um certo modelo de crítica que tem origem em Menipo. A ignorância da maioria da população que habitava a cidade da Bahia – e por extensão a Colônia - no século XVII, permitiu que a sátira do poeta fosse excomungada pela Igreja, que tolerava também certas críticas a padres e freiras, os quais Gregório não deixava escapar. Enquanto na Colônia a sátira é vista como uma forma perversa de emendar os costumes, na Europa, escritores como Luís de Góngora e mesmo, mais tarde, Boccage, são apreciados justamente por sua linguagem ferina e pela crítica audaciosa. Assim, certas formas de construir os poemas, bem como determinados detalhes de sua construção na configuração das personagens que aparecem nas poesias satíricas, constituem modelos canônicos de uma estética que aparece formatada pelas formas do cultismo e, certas vezes, do conceptismo, com antíteses, paradoxos, e figuras de linguagem as mais elaboradas. Da  mesma forma como certa escultura setecentista foi capaz de cultuar o feísmo, a construção da sátira não se volta para o belo, o aprazível, o celestial, mas para o feio, o revoltante, o mundano, como uma tentativa materialista de equilibrar um mundo também dividido entre as ações da terra e as promessas do céu. E Gregório de Matos é o poeta brasileiro que se lança à criação das sátiras no formato dos escritos dos grandes satíricos da Europa, contemporâneos seus que produzem uma crítica devastadora dos costumes e do ser.

      A crítica religiosa é uma constante numa época em que a Reforma Religiosa se encontra em plena expansão, logo após a sua implantação, arrebanhando grande número de fiéis que a Contrarreforma busca resgatar. As perseguições católicas aos judeus e hereges, aos cristãos-novos, entre outros não é capaz de agradar a uns e outros. Antes, suscita revolta em alguns, principalmente em intelectuais e artistas. Gregório de Matos é o retrato brasileiro de uma época que não pode ser totalmente compreendida por aqueles que não a viveram. E, na parcialidade da compreensão da história, Ana Miranda presenteia o leitor com Boca do Inferno, em que trata dos amores e da vida de um homem desgarrado da rígida moral imposta pela sociedade e pelas Instituições dominantes, optando por uma outra moral, própria, que lhe permitia viver como melhor aprouvesse.

4. O processo ficcional de D. Maria Berco


     No espaço da fantasia (Forster, 1965), o narrador configura uma personagem que passeará pelos pensamentos do poeta, um sonhador que idealiza essa mulher casada, D. Maria Berco. Assim, citada em uma de suas sátiras, assume um papel de destaque, apesar de constituir-se uma personagem ex-cêntrica. Sem pais, foi criada em orfanato, até que seu marido, o velho e cego João Berco, de lá a tirou mais para servi-lo do que para ser amada, considerando o vocabulário com que a tratava. Por outro lado, Maria Berco jamais lhe fora infiel e, ainda, pensava em dar-lhe melhores condições de vida. Para isso, trabalhava na casa dos Ravascos. Sustentada sobre essas argumentações, a personagem é solicitada a desaparecer com a mão do alcaide assassinado. Não resistiu, porém, à tentação, vendendo o anel valiosíssimo, sendo acusada de participação no crime de um homem tão importante.
      Na diegese, Gregório de Matos e Guerra é solicitado pela irmã de Gonçalo Ravasco para a defesa da moça, por isso trata de estudar o caso e providenciar argumentos para livrar D. Maria Berco do processo criminal que a levaria à pena de morte. O narrador, então, oferece os detalhes do processo, já julgado:

Gregório de Matos foi à Relação. Mostrando seu anel de canonista e distribuindo alguns vinténs, teve acesso à sala dos autos. Retirou de uma pilha de processos o de Maria Berco. Apenas quatro páginas, sem defesa, frio e objetivo. Verificou o livro de perdões e fianças. Fez algumas anotações num papel e guardou-o no bolso. Era necessário o número de três votos nos processos que envolvessem pena capital. Os processos demoravam de dois a quatro anos. Em poucos dias tinham concluído o auto de Maria Berco. (…) A sentença não estava assinada, não fora dada entrada à dissensão por escrito. Pelo estilo rebuscado de uma delas, Gregório de Matos reconheceu o autor: Góis. Pela gramática, reconheceu o autor da outra: Palma. Por que tanto rigor? Profissão da ré: meretriz. Calúnia. Acusação: roubo e facilitação de crime de morte. Falso. (MIRANDA, 1990, p. 253)

       Ao constatar as irregularidades do processo, a personagem Gregório de Matos se prepara para tomar providências e o primeiro passo é admitir que algo poderia ser feito para salvar D. Maria Berco, mas o esforço despenhado na tarefa seria “sobre-humano”.   
     Apesar do processo estar repleto de irregularidades, D. Maria Berco já estava há tempo na prisão e as chances de que resistisse viva eram muito poucas, considerando-se o que diz o narrador sobre a situação do julgamento de processos naquele período histórico no Brasil:

(…) Os processos tramitavam com lentidão,. (…) primeiro eram julgadas as causas cíveis; depois as criminais; por último os assuntos de interesse da Coroa. As causas cíveis eram tão volumosas que jamais sobrava tempo para as demais. Em consequência, os que respondiam processos criminais degeneravam-se nas cadeias, morrendo grande parte por doenças, fome. Os carcereiros mantinham um próspero mercado de extorsão às famílias dos acusados e poucos prisioneiros podiam receber ajuda à Irmandade da Misericórdia, que procurava ampará-los. (MIRANDA, 1990, p. 255).

     Ou seja, de acordo com o excerto, as chances de qualquer prisioneiro sair com vida da cadeia eram remotas. Por isso, Bernardina Ravasco teme pela vida do pai, Bernardo Ravasco, preso logo após o assassinato do alcaide Francisco Teles de Menezes. Mas a preocupação da personagem Bernardina Ravasco é desdobrada, a partir da prisão de Maria Berco, uma vez que esta restou como sua companhia e, detida, nada poderia lhe valer em sua enfermidade. Autorizada por António de Souza de Menezes, a prisão da filha de Ravasco também estava decretada. Assim, seguem-se uma série de prisões arbitrárias.

      Uma vez condenada a personagem D. Maria Berco nos autos do processo, é Bernardina Ravasco quem procura a personagem Gregório, solicitando maneira de interpor recurso.
      O jurista decidiu, então, apelar para João da Rocha Pita, à época desembargador da Relação da Bahia, o qual teria a incumbência de solucionar o caso, uma vez que os desembargadores Rocha e Palma estariam demasiadamente envolvidos com a parte vitimada e eram desafetos dos Ravasco.       Assim, o padre Antonio Vieira, que era o irmão de Bernardo Ravasco adiantou-se, solicitando a Portugal uma investigação justa.    
        A personagem Gregório de Matos e Guerra dirige-se, então, à residência da personagem Rocha Pita, com o intuito de interceder por D. Maria Berco: “jamais viria interceder por mim, pois conheço sua isenção e senso de justiça” (...), diz Gregório a Rocha Pita. Na ocasião, na diegese, Rocha Pita relembra o feito de Gregório de Matos em Portugal sobre o processo já comentado neste artigo.

O que pretende de mim? Vim para falar a vossenhoria sobre uma dama que está condenada à forca. Dona Maria Berco. Sim, já fiquei sabendo do caso. Qual é seu interesse? Não tenho nenhum interesse pessoal, senhor. Apenas sei que se cometerá uma injustiça, enforcando-a. É apenas uma opinião pessoal. Os juízes não consideram assim. Postule! Sei disso, Senhor, disse Gregório de Matos. Sei, também que a Relação é capaz de, por interesses de poderosos, aplicar a uma pessoa penas que muito excedam a seriedade de seu delito. Crime. Crime. O poder das autoridades legais muitas vezes ultrapassa a força da Lei. Os erros judiciais não são redimidos. Todos os degraus da burocracia judicial, juízes, letrados, escrivães, tabeliães, parecem ter sido cortados do mesmo tecido. Não preciso ouvir nada disso, a voz de Rocha Pita tornou-se áspera. (MIRANDA, 1990, p. 257)

    O diálogo com Rocha Pita aponta muito mais as faltas da justiça na Bahia do século XVII do que propriamente uma ausência de Justiça. Ou seja, a autoridade ou autoritarismo do Ancién Régime sempre ultrapassou a força da Lei. A metáfora sobre as autoridades do Judiciário, “terem sido cortados do mesmo tecido” indica a falta de isenção de certos integrantes, quando não se redimiam os erros judiciais.
     Rocha Pita investe verbalmente contra Gregório, dizendo-lhe que conhece bem a verve de sua sátira e declara, citando os escritos do poeta: “Não considero que toda a justiça seja injusta, vendida e abastardada, como afirma.” (MIRANDA, 1990, p. 257).

     Apelando a uma justiça “igual para todos”, como princípio inquestionável, Gregório de Matos diz a Pita que esteve na Relação e examinou o processo, verificando que não lhe foi dado a possibilidade de fiança. E questiona “por que não”? Apela, então, para casos similares, em que os precedentes indicam que senhoras que cometeram delitos semelhantes foram soltas sob fiança, recebendo cartas de seguro, permissão para ficar em liberdade, ou mesmo perdão. Para isso, bastava que tivessem esposo, pai, ou irmão, que intercedessem em seu favor. Mas no caso de Maria Berco nenhuma alternativa foi deixada.
     O nível da argumentação enfrenta a acusação formal de Rocha Pita:

        “Ela não cometeu nenhum crime. Apenas foi ingênua ao aceitar dar um fim à mão decepada do alcaide.
Quem pode garantir que ela sabia de quem era aquela mão? Qualquer mão decepada sugere um crime.
E ela roubou o anel. Não pensou nas consequências de seus atos. Não soube ela pensar. Nem poderia pensar.
Participou do crime. Favoreceu-o. Isso também é um crime. Não se trata de um castigo enigmático e uma culpa a decifrar. Tudo está muito claro.(...)
O delito dela não é grave. Sua participação teve um caráter de subordinação.
Esclareça!
Eu poderia alegar que ela encontrou entre dejetos da rua a sinistra mão decepada, o que se poderia referir em última instância. Mas serei honesto com Vossenhoria. D. Maria Berco era dama de companhia da filha de Bernardo Ravasco, e este lhe ordenou a ocultação. Tomou ele em sua responsabilidade o destino da mão do alcaide para evitar gestos desumanos por parte dos matadores. O secretário, aliás, inocente da morte, está a definhar na enxovia. (MIRANDA, 1990, p. 257-8)

     Gregório , então, lembra a Rocha Pita que todos os homens supostamente envolvidos no crime do alcaide Teles de Menezes têm aparecido mortos ou estão presos, além de outros que desapareceram, de maneira a não se poder saber se estão vivos ou mortos. E o faz lembrar que o assassino dessas pessoas está solto e sem nenhum julgamento, assim como o governador Antônio de Souza Menezes, que o apoia.
      Apesar dos argumentos do jurista, Rocha Pita diz que nada pode fazer em relação ao processo dessa senhora, D. Maria Berco, dada a gravidade de seu envolvimento no crime. Gregório compara o auto de Maria Berco a uma doença. Rocha Pita o contesta:

Não é uma doença. É um auto. Prossiga! Um auto que lembra o julgamento de Cláudio no tribunal de Easco. Pior, disse Gregório de matos. Os governadores também são homens sujeitos ao amor e ao ódio. Não é sobre Maria Berco que esse ódio deve desmoronar. Compreendi. Fez uma longa pausa, caminhando pela sala. O esposo da tal senhora pode interceder por ela e pagar a fiança?, perguntou, voltando-se para Gregório de Matos. Tentarei, senhor desembargador. Preciso de alguns dias para obter o valor da fiança e concordância do esposo. Dois dias, disse o desembargador. Agradeço muito. Sempre me disseram que vossé come apenas nabos fervidos. Não gosto de elogios. Sou apenas normal e não estou no céu. (MIRANDA, 1990, p. 25)

         Observe o processo de argumentação desenvolvido pelo jurista mediante um caso já encerrado, cujo último recurso de apelação só pode ser considerado pelo próprio desembargador. Primeiro, nosso poeta procura “espaços” na Lei que admitissem precedentes em casos semelhantes ao de D. Maria Berco, que, por analogia, se encaixasse o caso de sua protegida, para que o jurista pudesse reivindicar direitos semelhantes, de acordo com determinada classe e, por isso, inicialmente, ele consulta o Livro das sentenças e observa outros casos semelhantes àquele. Ou seja, a jurisprudência. Depois, verifica a possibilidade de obter um pedido de apelação, e só então procura o marido de Maria Berco para convencê-lo de que deve tirar a esposa da enxovia. Veja parte do diálogo que o narrador de Ana Miranda articula no romance:

(...) Temos uma maneira de livrá-la da forca. Temos? Podes assinar a fiança? A fiança e mais as despesas todas somam por volta de seiscentos mil réis. (...) Solicitas a mercê [ao governador] se eu pagar? [disse Gregório de Matos] Se ela voltar para mim solicito, disse sem hesitar. (...) Não achas que é arriscado para mim? (...) Sei em que está metida, coisas pesadas, coisas do inferno. (...) Não há risco nenhum, João Berco. Os maridos lutam por suas esposas no Tribunal. Fazem parte de seus patrimônios. (...) (MIRANDA, 1999, p. 261)

    Assim, o velho João Berco consegue uma audiência com o Governador e após a súplica, obtém o benefício solicitado. Satisfeito de haver feito um bom negócio, o velho retorna a casa e, antes que Maria Berco chegue da enxovia, o velho cego é encontrado assassinado, com um cofre aberto ao lado, de onde o assassino teria levado o dinheiro. Avaro, João Berco teria economizado a vida toda, fingindo-se pobre, ou o cofre seria uma maneira de despistar os verdadeiros assassinos?

     Desta feita, a dama de companhia de Bernardina Ravasco, Maria Berco é presenteada pelo jurista que aciona todo o seu conhecimento e brilhantismo sobre o Direito para livrá-la da forca.
       Após libertá-la, a dama de companhia dos Ravasco vai embora. Passa, então a sonhar com a realização daquele amor até então passional em pleno Recôncavo, onde passa os últimos anos de sua vida, após o retorno do exílio que sofrera em Angola, por motivos de perseguição religiosa e política.

5. Conclusões


       Apresentamos nestas páginas somente algumas considerações a respeito das maneiras como os processos eram conduzidos no Brasil-Colônia à época de Gregório de Matos e Guerra, porém o que procurou evidenciar-se neste trabalho é a importância da participação de Gregório de Matos e Guerra, cujo brilhantismo de suas defesas nos proporciona a melhor face do jurista. Embora o processo apresentado na narrativa seja ficcional, não há grande diferença entre as estratégias utilizadas por Gregório de Matos em outros processos reais e históricos, que a ele atribuíram fama, tanto em Portugal quanto no Brasil Colônia, dada a rapidez das decisões e a capacidade de tornar causas consideradas impossíveis e labirínticas em algo facilmente resolvido.
      O caso Maria Berco funciona na narrativa não somente para revelar o lado essencialmente jurista de primeira linha de Gregório de Matos, mas principalmente a faceta humana de um homem que parece apaixonado, certamente o “eu-poético” dos poemas lírico amorosos mais intensamente belos, escritos pelo Boca do Inferno que, muitas vezes, também se tornava o “Boca do Céu”, ao escrever belos poemas sacros, especialmente a Jesus, ou os lírico-amorosos, dedicados a mulheres angelicais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. 2. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2004.

MACIEL, José Fábio Rodrigues. “Ordenações Filipinas- considerável influência no direito brasileiro”. Jornal Carta Forense. 4/09/2006.

MATOS, Eunice de. Ficção e História no Romance Boca do Inferno. Dissertação de Mestrado - Curso de Pós-Graduação em Letras - Estudos Literários - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2003. Orientação: Profª Drª Marilene Weinhardt.

MENTON, Seymour. La nueva novela histórica de la América Latina (1979 - 1992). Mé x i co : Fondo de Cultura Econômica, 1993.

MIRANDA, Ana. Boca do Inferno. (romance). São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

RABELO, Manoel Pereira. Vida do Excelente Poeta Lírico, o doutor Gregório de Matos e Guerra. Em: www.filologia.org Sites consultados http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_lit/index.cfm?fuseaction=biografias_texto&cd_verbete=4952&cd_item=35 http://www.cartaforense.com.br/Materia.aspx?id=484.